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Música Boa Brasileira
m-música
Revisita MPB
ZiriGuidum
Expresso 2222
 
Quarta-feira, Novembro 26, 2003  

A POÉTICA DE
Aldir Blanc



O amor
sempre foi o causador
da queda da trapezista
pelo motociclista
do globo da morte.
O amor é de morte.
Faz a odalisca atear fogo às vestes
e o dominó beber água-raz.
O amor é demais.
Me fez pintar os cabelos,
me fez dobrar os joelhos,
me faz tirar coelhos
da cartola surrada da esperança.
Falso Brilhante

O meu amor não é o cais
Não é o barco
É o arco da espuma
Que, desfeito, eu sou
É tudo e coisa nenhuma
Entre a proa e a bruma, o amor
É a lembrança que enfuna
Velas na escuna que naufragou
Não é no livro antigo o olor
De rosa que eu recebi
Não é a ode, a loa
Em Fernando Pessoa
Mas é a nostalgia
Do que eu não li
Não é o camafeu
Exposto na vitrine, em loja de penhor
Mas é o que doeu
No peito feito um crime
Ao homem que o trocou
É o olhar de um instante
Fixando o amante
Em plena traição
Que há em noivas degoladas no caramanchão
É o vulto de mulher
Há muito tempo morta
Em frente à penteadeira
É o vazio que a
Ausência dela ocupa ao ver sua cadeira
A chuva dessa tarde trouxe Tito Madi
E apenas eu ouvia...
Ah, o amor é estar no inferno ao som da Ave Maria!
Nem Cais, Nem Barco

Eu sei:
na idade em que estou
aparecem os tiques, as manias,
transparentes
feito bijuterias
pelas vitrines
da Sloper da alma.
Bijuterias

Ela sonha ter mais do que podia ter,
embriagada nas ondas do prazer.
A boca é vinho tinto,
as mãos são de absinto
e a cintura dela é a estrela por nascer.
Escultura moldada pelas mãos de Deus,
sepultura dos que disseram adeus.
O rosto é uma pintura
e os homens são molduras vazias
que ela pode preencher.
Odalisca

Vives grudada em mim,
gerando a pedra
em teu ventre de ostra
e eu conservo o fulgor do nosso ódio
estreitando a velha concha...
Amiga inseparável,
tu és meu acaso
e por acaso eu sou tua sina,
somos sorte e azar,
tu és minha relíquia,
seu sou tua ruína.
Siameses

Eu vivo do erro,
habito o desterro,
O ermo é o meu paraíso.
Mas sou brasileiro
e o que é derradeiro
tem gosto de um dia banal como a terça-feira
Bornal também guarda a estrela e o sol.
Quermesse

As coisas que eu sei de mim
são pivetes da cidade:
pedem, insistem e eu
me sinto pouco a vontade.
Fechado dentro de um táxi,
numa transversal do tempo,
acho que o amor é a ausência
de engarrafamento.
Transversal do Tempo

Eu quando choro,
do olho sai meteoro e fogo,
de cada poro um vulcão.
É dor capaz de tombar
a via-láctea no mar
mas cabe dentro do olho de um grilo no manguezal.
Nítido e Obscuro

Vou-me embora
Pra que o tempo nos cobre em saudade
O que a vida vale
Pra que o amor seja o que nos distancia
E não o ódio que nos equivale (...)
Vou-me embora
Pra que seja a vida
Ao invés da morte
O que nos separe.
De Partida

Tonto de gin
vejo a Cinelândia piscar pra mim, sim
bebo ao meu fim
no Amarelinho outra dose de ódio.
Rio Orleans

Na agonia imensa dessa hora
me sinto langorosa, imersa em vício.
Penso que não e digo sim: suplício
que me flagelará a vida afora
Meu corpo vira altar de sacrifício
e se consome enquanto a alma chora:
Palestina estuprada por um míssil,
caída entre escombros de outra aurora.
Soneto em blue

Tu te esfumarás...
me neblinarei...
sobre os telhados,
galáxias azuis.
Sonambularás,
te voltearei,
gatos lambendo as estrelas...
Wendy e Peter Pan
sem amanhã
- nunca pra nós dois, é sempre cedo.
Marietarás,
eu buarquirei,
em dois cavalos
com asas de luz.
Tu te nublarás
me eclipsarei...
nuvens em nossa cabeça.
Valsa pra Leila

Juntei no violão pra você
o que já não tem mais sentido
e amarrei num buquê
pra reaver o perdido.
A terra onde nasceu Peter Pan
fica entre a Vila e o Maracanã.
Bordei no aveludado do céu
por trás do Cruzeiro do Sul
um transatlântico Azul
e nele vou te levar
pra um por-de-sol com o marinheiro Sinbad,
pra uma ciranda em Itamaracá.
Ramo de Delírios

Brasil
Tira as flechas do peito do meu padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar
Saudades da Guanabara

Você fica deitada
Com medo de escuro
Ouvindo bater no ouvido
O coração descompassado
É o tempo, Maria, te comendo
Feito traça num vestido de noivado.
Bodas e Prata

Teu vestido preto
quer enverdecer,
teu cabelo preso
quer estremecer
ao cair da tarde
pro olhar dos homens
e então resplandecer,
dançar...
Tua boca triste
quer frutificar,
quer se intumescer
nos sumos da paixão,
morder, ai, beijar
a boca infinita da ilusão.
Exasperada

Esse é o segredo de quem,
como eu, vive na boemia:
colocar no mesmo barco
realidade e poesia.
Rindo da própria agonia,
vivendo em paz ou sem paz,
pra mim tanto faz
se é noite ou se é dia.
Me dá a penúltima

Da varanda vejo a praia encandeada
por uma lágrima com lume de farol,
pérola pálida, altiva e cultivada,
engastada na tiara da primeira luz do sol.
Cada gota que saltar
das varandas do meu medo
será mais que a lua e o mar
sobre a fronte fria do lajedo.
Varanda

Choro. A paixão é mansão
onde eu vivo e não moro...
rememoro a ferida
de querer toda a vida. (...)
Volta, ida
A paixão se suicida
se a razão se intromete:
A paixão é uma freira descalça
em vison de vedete.
Paixão Descalça

Asas invisíveis sobre o meu silêncio
Facas dirigidas contra o que eu não tento,
E hoje o mar de Angra
Sangra dos meus olhos
Precipício aberto
De onde me arrebento.
Angra

Eu quero outra flor, tesa de juventude,
o pé delicado, a voz in the mood,
a língua do mar
na boca infantil
os olhos do sol
no outono de abril...
Trilha Sonora

Pela pista fatal da Avenida Brasil
Ela volta e tem direito
A um metro de passagem.
Com um filho na barriga
De que lado da avenida
Ficará a vida dela:
Luz lilás, arrependida,
Ou sumida na favela?
Fatalidade (Balconista teve morte instantânea)

E quando o sol vai dormir, eu me deito também.
Transformo a cama onde amamos na linha de um trem.
Noites só fazem sentido se você formar o meu par
e com o riso bonito me tirar pra dançar...
Mais que o vazio da cama, dói essa ausência de drama,
grita a mesmice da casa sem som na tevê,
estamos acostumados a morrer de prazer
e a noite é um silêncio de rosas
que esperam sorrir pra você...
Dores Dolores

Teu pescoço, ilha cercada de luz
no fulgor da gargantilha
que nem praias de brilhantes em teu colo
merecendo redondilhas...
Conto de Fada

Arrebentar
a corrente que envolve o amanhã,
despertar as espadas,
varrer as esfinges das encruzilhadas.
Todo esse tempo
foi igual a dormir num navio:
sem fazer movimento,
mas tecendo o fio da água e do vento.
O Cavaleiro e os Moinhos

Eu aprendi que a alegria
de quem está apaixonado
é como a falsa euforia
de um gol anulado.
Gol Anulado

Mergulhei muito em teus olhos,
sombrios como cisternas...
eu achava que assim
chegaria até a flor de sal
entre tuas pernas...
Mergulhei muito em teu corpo,
fechado como um segredo...
eu achava que assim
alcançaria o lençol
de onde jorrava o teu medo...
Mas foi tudo maré baixa
com ressaca ocasional,
ondas vagas de desgosto,
pancadas de litoral,
mentira equatorial
deixando areia em meu rosto.
Não tava pra peixe

Fica ao meu lado, São Jorge Guerreiro
com tuas armas, teu perfil obstinado
me guarda em ti, meu Santo Padroeiro
me leva ao céu em tua montaria
Numa visita a lua cheia
que é a medalha da Virgem Maria
Do outro lado, São Jorge Guerreiro
põe tuas armas na medalha enluarada
te guardo em mim, meu Santo Padroeiro
a quem recorro em horas de agonia
tenho a medalha da lua cheia
você casado com a Virgem Maria
O mar e a noite lembram a Bahia
orgulho e força, marcas do meu guia
conto contigo contra os perigos
contra o quebranto de uma paixão
Deus me perdoe essa intimidade:
Jorge me guarde no coração
Que a malvadeza desse mundo é grande em extensão
e muita vez tem ar de anjo
e garras de dragão
Medalha de São Jorge

Eu tenho num bolso
uma carta,
uma estúpida esponja
de pó-de-arroz
e um retrato, meu e dela,
que vale muito mais
do que nós dois.
Eu disse ao garçon
que quero que ela morra,
olho as luas gêmeas dos faróis
E assovio.
somos todos sós
mas hoje eu estou de bem comigo
E isso é difícil.
ah, vida noturna,
eu sou a borboleta mais vadia
na doce flor
da tua hipocrisia.
Vida Noturna

Prezado amigo, eu vi sair do papel
a pedra e o fogo que há no céu,
e tudo parecia letra de chorinho
e então também chorei...
Os meus avós e o pai são os degraus
aonde eu piso em direção ao caos,
mas posso ver na beira goiabeiras,
limoeiros, pés de sapoti,
e a Penha volta aqui
feito o Mito de uma Ressureição.
A hóstia é pedra - hei de ralar!
a Santa não pode cumprir o que não me crismar:
o pai que eu amo não demora,
a valsa chora e eu sei que chora
Pelas Penhas que eu vou inventar
até que a própria Virgem
mande eu descansar...
Carta de Pedra (Igreja da Penha)

Carnaval passional:
velas de serpentina
a alma de isopor e purpurina...
Carnaval, missa campal do povo brasileiro
onde a hóstia sagrada é o pandeiro
Carnaval, celestial império do trambique
onde o crente idolatra o repique.
Vitória da Ilusão

Meu coração tem butiquins imundos,
Antros de ronda, vinte-e-um, purrinha,
Onde trêmulas mãos de vagabundo
Batucam samba-enredo na caixinha.
Bandalhismos

50 anos são Bodas de Sangue:
casei com a inconstância e o prazer.
Perdôo a todos, não peço desculpas
- foi isso que eu quis viver.
Acolho o futuro de braços abertos
citando Cartola: eu fiz o que pude.
Aos 50 anos, insisto na juventude.
50 Anos

Meu samba virou cavalo branco
Galopando em colcheias pelo prado
Semínimas flores se espalhando
Na clave de um sol transfigurado
Sonatas suspiram desejando
Os prelúdios em fuga nos baixios
Cromáticas aves mergulhando
Nos vaus pianíssimos dos rios
O arpejo da chuva me assegura
Que essa paixão é ostinata
Estrelas... compões a tessitura
Pra lua que surge apassionata
Insana ela conta que as histórias
Dos grandes amores viram plágios
Dissonâncias glissando aleatórias
Nas codas noturnas dos adágios
Quatro Tempos

Quando ele nasceu
foi de teimoso
com a manha e a baba do tinhoso.
Chovia canivete...
Quando ele nasceu
nasceu de birra...
Barro ao invés de incenso e mirra,
cordão cortado com gilete...
Gênesis (Parto)

Numa esquina de Copa ficava parada,
alvejada pelas setas do vício,
e o início tinha sido divino:
um amante latino...
Sua boca vermelha, a maçã tatuada
sobre o ombro (a sombra de veludo),
a pele onde um homem que é nada
pensa que é capaz de tudo.
Maçã Tatuada

Cego surrealista:
um trem de celofane
trilhando um xilofone
O cego me faz
ver nos vestidos dos varais
as prostituas louras do cais,
o mar desde Arraiolo
na água pro monjolo,
o fio da navalha,
o couro da sandália,
a talhadeira e o cinzel:
cordas de um menestrel
Visão de Cego

O terno branco parece prata
e a fita em meu peito diz que eu sou
daqueles que vão pra Maracangalha
rever Anália
eu vou
No vento que leva o chapéu de palha
também sou de fibra e pau-brasil
O samba é tudo que eu sei
e Momo é o único rei que amei.
Anjo da Velha Guarda

Ah! Como é difícil tornar-se herói
Só quem tentou sabe como dói
vencer Satã só com orações.
Agnus Sei

Quem me vê sentado
atrás dessa mesa
de escriturário
não vê o tarado,
o louco sanguinário,
o bárbaro sem véu,
o estripador cruel...
Não me vê no convés
de um veleiro de três mastros
me guiando pelos astros
a caminho de Bornéu
Retrato Cantado

Age, Maria,
rasga o teu véu de virgem,
tinge tuas mãos na vertigem do pecado.
Maria, ateu ao teu lado,
lanço em teu ventre
a língua que te consagre.
Milagre é seu pura em plena incontinência.
Sacra é a vida da incoerência.
Não quero ser carpinteiro
pra esculpir cruz que imortalize:
que não seja eu
que ao te amar
te martirize.
Age Maria

Sempre o teu rosto
Nos meus espelhos,
Teus cães de caça
Nos meus joelhos
E um perfume
Que me mata de ciúme.
Perversa

Sussurrante é teu amor
um escafandrista
Tateando em mim
dramas a perder de vista
O dom de acariciar
profundamente feito o mar
remexendo o que naufragou
lentamente na solidão
Falsa paz submarina
jaz entre os corais
num barco submerso
o que eu não confesso
Iça do abismo
ardor, orgulho
Novos tanques de mergulho
pra poder assim me resgatar
do frio verde
Por paixão eu volto à tona
e, Atlântida entre as ondas,
solene, linda sai do mar.
Restos de um Naufrágio

Música pra mim
é feito o ar que eu sorvo
a mão que eu movo,
e o coração,
na sístole e diástole
é a prima e o bordão,
o traço de união que há,
entre blues, Kalu,
a índia e o Caramuru...
Samba de um Breque

Caía
a tarde feito um viaduto
e um bêbado trajando luto
me lembrou Carlitos.
A lua,
tal qual a dona do bordel,
pedia a cada estrela fria
um brilho de aluguel.
O Bêbado e a Equilibrista

Existe um sax em mim
chorando baixinho assim
e é bonito uma lágrima cantar...
Um saxofone num bar
me faz respirar
sempre que o amor
provoca em mim falta de ar.
Choro pro Zé

Tonto foi meu coração
na ilusão de não sermos sós,
mas carreguei sobre os sombros
os amores de todos nós.
A saudade jorrou em torrentes
e o meu corpo não pode contê-la:
eram tantos na ânsia de luz
que eu virei uma estrela.
Enluarada

Ah, quem sabe de si nesses bares escuros,
Quem sabe dos outros, das grades, dos muros...
No drama sufocado em cada rosto
A lama de não ser o que se quis,
A chama quase morta de um sol posto,
A dama de um passado mais feliz.
Cabaré

Do teu corpo saciado,
debruçado sobre mim,
brotam risos estrelados
iguais ao som de um bandolim.
Entre as pernas em teus pelos
um rubor de flamboyant
faz tua ilha Paquetá de manhã.
Cai a chuva nos cabelos
e há lampejos e trovões no ar...
mais um beijo e o arco-íris
tinje o teu olhar.
Nadam cardumes e peixes
nos pingos do teu suor,
voam flamingos nas redes das mãos
e os seios ao sol.
Divindades sacrificam
dentro dos olhos ateus
e ondas brancas fingem lenços de adeus.
E o teu corpo saciado
deixa o meu de lado e vai dormir
e o meu corpo desvairado
não se conforma em ver partir
quem me ensinou
a não se despedir.
Choro das Ondas

Fiz o meu rancho lá nas nuvens
onde se pode conversar,
onde os anjinhos são cor de chope...
Tomo cuidado só ao debruçar
vendo o mar, ai... (...)
Aos meus amigos que ficaram
um portador há de levar
um par de asas
e um pára-quedas
pra quem quiser me visitar.
Jobiniana

Saindo pro trabalho de manhã
o avô vestia o sol do quarador
tecido em goiabeiras, sabiás,
cigarras, vira-latas e um amor.
E o amor ia ao portão pra dar adeus
de pano na cabeça, espanador...
Tempos do Onça e da Fera (Quarador)

Meu catavento tem dentro
o que há do lado de fora do teu girassol.
Entre o escancaro e o contido,
eu te pedi sustenido
e você riu bemol.
Catavento e Girassol

Vi muitas vezes o destino
ir na direção errada
e a bondade virar completo desatino
a carícia se transformando em bofetada.
Eu sou rolimã numa ladeira,
não tenho o vício da ilusão:
hoje, eu vejo as coisas como são
estrela é só um incêncio na solidão.
Se eu feri teu sonho em pleno vôo,
pra que pedir perdão se eu não me perdôo?
Pra que pedir perdão?

Confesso, querido diário,
essa mulher me convulsiona
o ar de mártir no calvário
dentro da bacanal romana.
Garanto, querido diário,
que atrás da leve hipocondria
convive a hóstia de um sacrário
com o fogo da ninfomania.
Querido Diário

Se um dia
eu vislumbrar tua mão
verei que a escuridão
imita a claridade.
A tarde
ensaia o anoitecer.
Assim quero você...
num sol eclipsado.
Eu tateio teu corpo atanto
com dedos de escuro e vento
e o que imagino prova
sabor de lua nova
entre gotas de sereno...
Unidos
iguais ao mar e à areia
teu vulto me incendeia,
minha luz te escurece,
toda treva clareia
e o amor, que é cego, agradece.
Cegos de Luz

Às vezes, tu és Gilda em Rigoletto
e eu sou teu pai.
Em outras, tua sina é a de Madame Butterfly
Disfarça teu amor,
Amélia em Bal Masqué,
Cigana és igual a Carmen de Bizet.
Ária de Opereta

Ele não sabe mais o que sabia
e o que sabe ele esquece que aprendeu,
mas querendo esquecer o que ele sabe
ele aprende a aprender o que esqueceu.
Tristeza de uma Embolada

Em vez de ir direto àquele assunto que me traz
Eu vim chorando leve de viés...
Gravei de ouvido tantas confissões musicais,
móveis e imóveis tramas que a onda faz
tangendo a lua branca no convés.
Pianinho

É tão bonito
ver um sambista tranformar-se em dança
de ramos verdes onde o vento e a sombra
transmitem aos filhos sua herança.
Quando o arvoredo amanhece
vestindo o rosa da Aurora Bordadeira
cada estrela troca o céu
pela bandeira da Mangueira.
Cachaça, Árvore e Bandeira

Morre a luz da noite
o porre acende pra me iluminar
numa outra cena...
Zune o vento e valsam os oitis
no velho boulervard:
bosques de Viena!
Escrevo a carta a uma desconhecida
com quem tive um flerte, um anjo azul...
pobres balconistas de paquete, de ar infeliz
são novas Bovarys...
Já perdi o expresso do oriente
onde sempre sou
vítima e assassino...
Tomo a carruagem e o cocheiro
de tabela dois
diz que é vascaíno...
Ah, triste figura, Don Quixote
quer mais um traçado
- cadê o Sancho?
Dá pro santo, bebe, e o passado
volta a desfilar,
pierô de marcha-rancho.
Viena Fica na 28 de Setembro

No teu corpo ao luar
girassóis vou pintar
com trigais de Van Gogh e rios
e as reverberações
das noites e canções
clarearão teu corpo
tonto de amarelazuis...
Impressionados

Mas amor demais é um desacerto...
meu caso é o tal "pior a emenda que o soneto".
Vivi num gueto, eu fui meu próprio prisioneiro,
sonhei estrelas no convés feito um escravo das galés.
A gente chega lá...

Há quem não se importe
mas a Zona Norte
é feito cigana lendo a minha sorte:
Sempre que nos vemos ela diz
quanto eu sofri
E Copacabana
a linda meretriz-princesa
Loura mãe de santo
com sua gargantilha acesa...
Ela me ensinou pureza e pecado,
a respiração do mar revoltado...
Rio de Janeiro, favelas no coração
Só Dói Quando Eu Rio

A raiva dá pra parar, pra interromper.
A fome não dá pra interromper.
A fome e a raiva é coisa dos home.
A fome tem que ter raiva pra interromper.
A raiva é a fome de interromper.
A fome e a raiva é coisa dos home.
O Ronco da Cuíca

Tempestarde
Chuvabismo
Relampeado azulejei com a luz
além-rebentação
confessei: o mar é meu pecado!
Eu errei, quis ser rei,
soberbei...
Orassamba

Eu fui pra Limoeiro
e encontrei o Paul Simon lá
tentando se proclamá gerente do mafuá...
Se os peão não chiá
o Boi Bumbá vai virar vaca.
Baião de Lacan

Batendo pelas tabelas
meu jogo é elas por elas:
não quero nem dou partido.
Numa jogada infeliz
resvala o tempo vivido
quem nem um taco sem giz.
Tabelas

Fiz esta canção
pra contorcionista
que padece da coluna,
pro engolidor de fogo
cheio de bronquite
que, no escuro, ainda fuma...
pro ilusionista
que se enforcou na estola
e viu na cartola o mar...
pro atirador
que voltou a faca
contra a própria jugular.
Pequeno Circo Íntimo

Eu sou a música da gente quando nua e crua
Escorro do nariz do pobre quando ele se assua
Sou Carolina na janela desejando a rua...
Com a solitude eu ando acompanhado
Cada virtude minha é um pecado
Varejeira come lixo feito creme chantili
E que mistério tem aí?
E qual lição que eu aprendi?
Sete Estrelas

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Quarta-feira, Novembro 12, 2003  

O que vem por aí
Dubas Música

Jards Macalé - Contrastes
Gravado em 1977 na Som Livre, "Contrastes" é lançado pela primeira vez em CD. O disco traz uma legião de participantes que engloba Wagner Tiso, Jackson do Pandeiro, Gilberto Gil, Paulo Moura, Dominguinhos, a Orquestra Tabajara, entre os mais de 100 músicos que aparecem na ficha técnica. Esta edição traz um texto inédito escrito por Macalé em 1977 e um depoimento exclusivo para a versão em CD. Uma curiosidade é a solução encontrada para a proibição de Ana Miranda de utilizar a capa original na qual aparece beijando Macalé: a parte dela na foto foi apagada, como se tivesse sido queimada.

Edu Lobo - Edu Lobo
Um momento fundamental da discografia de Edu Lobo finalmente chega ao CD. Trata-se do disco que leva o seu nome, o terceiro de sua carreira e o primeiro no qual ele aparece como arranjador, ao lado de Luiz Eça. Gravado em 1967, apresenta o compositor em parcerias com Vinicius de Moraes, Dori Caymmi, Capinan, Ruy Guerra e Gianfrancesco Guarnieri. No repertório estão "Corrida de Jangada", "Canto Triste", "Candeias" e "No Cordão da Saideira". Essas duas últimas músicas voltam como faixas bônus ao final do disco, em versões inéditas gravadas por Edu em 2003, acompanhadas de um depoimento dado pelo artista para esta edição.

Tenório Jr. - Embalo
"Embalo" é um nome mais que apropriado para este que é um dos maiores discos de samba-jazz de todos os tempos. Gravado pelo pianista Tenório Jr. para a gravadora RGE, em 1964, o álbum ganha uma edição especial em CD. Tenório comandou um dream team que inclui Paulo Moura, Meirelles, Raul de Souza, Milton Banana e outras feras, apresentando temas de sua autoria e versões para clássicos da bossa nova.

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Terça-feira, Novembro 04, 2003  

PARA OUVIR
Nora Ney


Tire Seu Sorriso do Caminho (Som Livre/1972)
Este disco marcou a volta de Nora Ney à cena depois de um longo jejum fonográfico. Ela faz uma revisão da carreira com sucessos como "Ninguém me ama" (Antônio Maria/Fernando Lobo) e "De cigarro em cigarro" (Luiz Bonfá). O repertório - com arranjos de Guio de Moraes - traz ainda Mario Lago ("Vamos falar de saudade" e " É tão gostoso seu moço"), Nelson Cavaquinho (a canção-título e "Quando eu me chamar saudade"), entre outros. O texto de apresentação é de Vinicius de Moraes.


A Música Brasileira Deste Século por Seus Autores e Intérpretes (Sesc/2000)
Gravado em 1973, o programa MPB Especial reproduzido neste CD tem no roteiro, em sua maioria, canções do LP "Tire seu sorriso do caminho", que havia sido lançado pouco tempo antes e clássicos como "Último Desejo" (Noel Rosa), "Eu e a Brisa" (Johnny Alf) e "Castigo" (Dolores Duran). Acompanhada pelo LM Trio (Luis Mello/piano, Cláudio/baixo e Guilherme/bateria) a cantora conta, em entrevista a Fernando Faro, histórias de sua carreira. O CD faz parte da segunda caixa da coleção do Sesc e não é vendido separadamente.


Nora Ney e Jorge Goulart - Jubileu de Prata (Som Livre/1976)
Comemorando 25 anos de união, o casal esbanja talento em dueto nas canções "Provei" (Noel Rosa/Vadico) e "Brinde ao Cansaço" (Candeia). Nora Ney usa seu timbre grave para lançar "Canção de quem espera" (Sivuca/Glorinha Gadelha) e "Me dá a penúltima" (João Bosco/Aldir Blanc). E registra ainda "Ronda" (Paulo Vanzolini), "Se eu morresse amanhã de manhã" (Antônio Maria) e "Dois Tristonhos" (Lupicinio Rodrigues). A capa original - infelizmente descartada dessa reedição em CD - traz um belo trabalho de Mello Menezes. O disco foi produzido por Guto Graça Mello e Pelão, com arranjos de Ivan Paulo.


Nora Ney & Jorge Goulart (InterCD)
Esta capa horrenda - típica dos relançamentos da InterCD - esconde um LP gravado pela cantora para a Todamérica, dividido com seu marido, o cantor Jorge Goulart. Não há duetos. Das 10 faixas, 4 ficaram com Nora: "Quatro Motivos" (Norival Reis/Arnaldo Almeida), "Luzes da Ribalta" (C. Chaplin/Antonio Almeida/João de Barro), "Felicidade" (Antonio Almeida/João de Barro) e "Sem Ninguém" (Celso Guimarães).


Nora Ney e Jorge Goulart - Amor, meu grande amor (Revivendo)
Esta compilação da Revivendo traz as faixas gravadas para a Todamérica (lançadas pela InterCD) e tem como destaque canções de Copinha ("Deixa-me"), Tom Jobim ("Solidão") e Braguinha ("Duas Lacraias"). Estão presentes, ainda, as obrigatórias (na voz da cantora) "Ninguém me ama" e "De cigarro em cigarro".

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Segunda-feira, Novembro 03, 2003  

CD - lançamento
Os Pianeiros - Antonio Adolfo abraça Ernesto Nazareth



Gravado em 1981 na Polygram, o disco "Os Pianeiros - Antonio Adolfo abraça Ernesto Nazareth" acaba de ser relançado pela Kuarup, trazendo recriações do pianista Antonio Adolfo para a obra de Ernesto Nazareth (1863-1934).

A idéia de registrar a obra do pianeiro foi sugestão de Hermínio Bello de Carvalho, que escreveu o texto de apresentação reproduzido nesta reedição em CD. Curiosamente o disco saiu pela Polygram em função de uma permuta: Antonio Adolfo trocou arranjos para artistas da gravadora por horas de estúdio para fazer seu disco.

O time que acompanha o pianista conta com Dino 7 Cordas, Jorginho (pandeiro), Cláudio Jorge (violão), Oberdan Magalhães (flauta), Jaques Morelenbaum (cello), entre outros, além da participação vocal de Zé Luiz Mazziotti em "Bambino (Você me dá)", com letra de Catulo da Paixão Cearense.

No repertório, clássicos como "Escorregando", "Tenebroso" e "Apanhei-te Cavaquinho".

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